Onyx Grand Prix: Do Milagre no Estoril ao Escândalo Financeiro da Moneytron

Onyx Grand Prix: Do Milagre no Estoril ao Escândalo F1 | Arquivos do Paddock

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A história da Fórmula 1 não é feita apenas de dinastias vitoriosas e campeões mundiais. Muitas vezes, as páginas mais fascinantes da categoria rainha são escritas por equipas pequenas, românticas e atribuladas, que desafiaram os gigantes do desporto contra todas as probabilidades. No final da década de 1980, nenhuma equipa encarnou melhor este espírito "david contra golias" — misturado com uma boa dose de excentricidade e escândalo — do que a britânica Onyx Grand Prix.

Com uma passagem fugaz pelo pelotão entre 1989 e 1990, a Onyx deixou uma marca indelével na F1. Esta é a crónica de uma escuderia que viveu intensamente, saboreou a glória num pódio em Portugal e ruiu sob o peso de um dos maiores esquemas financeiros do desporto.

## A Subida do "Garagista"

Fundada originalmente em 1978 por Mike Earle e Greg Field, a Onyx construiu uma reputação sólida nas categorias de promoção. Depois de conquistar o título da Fórmula 3000 Internacional em 1985 com Christian Danner, a equipa sentiu que estava pronta para o derradeiro passo: a Fórmula 1.

O momento parecia perfeito. Em 1989, a F1 baniu os motores turbo e regressou aos propulsores atmosféricos de 3,5 litros. Esta mudança barateou os custos e atraiu uma vaga de novas equipas. No entanto, o dinheiro continuava a ser o combustível essencial e, para financiar o sonho, Earle aliou-se a um dos personagens mais bizarros e magnéticos que o paddock alguma vez viu.

## Jean-Pierre Van Rossem e a Ilusão da Moneytron

Entra em cena Jean-Pierre Van Rossem, um economista e milionário belga de visual desalinhado — cabelo comprido, barba farta e uma atitude irreverente. Van Rossem comprou a maior parte da Onyx e cobriu os carros com as cores e o logótipo da Moneytron.

O que era a Moneytron? Segundo Van Rossem, tratava-se de um supercomputador com um algoritmo revolucionário, capaz de prever as flutuações dos mercados de ações do mundo inteiro e gerar lucros infinitos. Com os bolsos aparentemente cheios, a Onyx desenhou o modelo ORE-1, equipado com o fiável motor Ford Cosworth V8, e contratou o experiente piloto sueco Stefan Johansson e o jovem promissor Bertrand Gachot.

## O Pesadelo das Pré-Qualificações e o Milagre do Estoril

A vida de uma equipa estreante em 1989 era brutal. Com quase 40 carros inscritos no campeonato, a Onyx tinha de enfrentar as temidas sessões de pré-qualificação. Às sexta-feiras de manhã bem cedo, os carros iam para a pista apenas para tentar garantir um lugar no treino de qualificação oficial. Ficar de fora era o destino mais comum.

Mas a resiliência britânica e o talento de Stefan Johansson começaram a dar frutos. O primeiro sinal de aviso surgiu no GP de França, onde Johansson qualificou o carro num brilhante 13.º lugar e terminou a corrida na 5.ª posição, somando os primeiros pontos da equipa.

O zénite da Onyx chegaria a 24 de setembro de 1989, no Grande Prémio de Portugal, no Circuito do Estoril. Numa corrida caótica — marcada pela polémica desclassificação e posterior colisão de Nigel Mansell com Ayrton Senna —, a Onyx desenhou uma estratégia genial. Enquanto a maioria do pelotão parou para trocar de pneus Goodyear no abrasivo asfalto português, a equipa decidiu manter Johansson em pista.

O sueco geriu os pneus de forma soberba e escalou a classificação. Nas voltas finais, a faltar combustível, Johansson cruzou a linha de meta num inacreditável 3.º lugar, atrás de Gerhard Berger (Ferrari) e Alain Prost (McLaren). O pódio do Estoril foi um autêntico milagre: uma equipa que meses antes nem passava das pré-qualificações estava agora a celebrar ao lado de lendas. A Onyx terminaria o ano num honroso 10.º lugar no Mundial de Construtores.

## O Castelo de Cartas Desmorona-se

O sucesso de 1989 provou ser o pico antes de uma queda vertiginosa. Fora das pistas, o império de Van Rossem começava a estalar. O comportamento do belga tornou-se insustentável. Insultou publicamente o presidente da FIA, Jean-Marie Balestre, e o chefe comercial da F1, Bernie Ecclestone, resultando na sua expulsão do paddock.

Mais grave ainda: as autoridades começaram a investigar a Moneytron. Descobriu-se que o "supercomputador milagroso" não passava de fachada para um gigantesco esquema em pirâmide (Ponzi). Van Rossem tinha enganado centenas de investidores ricos, acumulando uma fortuna ilegal. O dinheiro secou instantaneamente e o belga acabou mais tarde condenado a uma pena de prisão por fraude.

## A Agonia sob o Nome Monteverdi

Desesperada por sobrevivência e abandonada por Van Rossem no início de 1990, a Onyx foi vendida a um consórcio suíço liderado por Peter Monteverdi, um conhecido fabricante de automóveis de luxo e colecionador.

A equipa foi rebatizada como Monteverdi Onyx, mas o projeto já estava condenado. Sem fundos para desenvolvimento, os carros tornaram-se perigosos por falta de manutenção. Relatos da época indicavam que a equipa chegou a utilizar componentes usados de outras equipas e a retirar peças do museu pessoal de Monteverdi para colocar os carros a andar.

A situação tornou-se insustentável. Pilotos como Johansson e o jovem JJ Lehto abandonaram o barco ou foram dispensados. Após o Grande Prémio da Hungria de 1990, vendo que a qualificação para as corridas era já uma miragem e as dívidas acumulavam-se, Monteverdi fechou definitivamente as portas da equipa.

## O Legado da Onyx

A Onyx Grand Prix competiu em apenas 26 Grandes Prémios, mas a sua passagem pela Fórmula 1 condensa toda a essência de uma era dourada e irrepetível. Deixou-nos a memória visual de um monolugar elegante com as cores azul e rosa-choque, a audácia de engenheiros que faziam muito com quase nada e, acima de tudo, a prova de que, no Estoril de 1989, durante uma tarde de sol, os subdogs também podiam subir ao pódio.

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