imagem original de Paul-Henri Cahier
Há corridas que valem por campeonatos inteiros. O Grande Prémio da África do Sul de 14 de março de 1993, em Kyalami, foi uma delas. A jornada de abertura dessa temporada não foi apenas o início de mais um ano de Fórmula 1; foi o único dia na história em que três dos maiores titãs de todos os tempos dividiram as três primeiras posições da grelha e travaram uma batalha titânica, roda com roda, pela liderança.
Para os amantes do desporto, Kyalami 1993 foi o zénite de uma era de ouro.
## O tabuleiro de xadrez: Tensões ao rubro
O ambiente nas boxes de Joanesburgo estava elétrico, carregado por rivalidades políticas e assimetrias técnicas:
* Alain Prost regressava à F1 após um ano sabático. Vinha com o fato da Williams-Renault e os comandos do FW15C — uma autêntica nave espacial equipada com suspensão ativa e controlos eletrónicos que faziam dele o carro a bater.
* Ayrton Senna estava furioso. Prost tinha vetado a sua entrada na Williams, obrigando o brasileiro a ficar numa McLaren-Ford tecnicamente inferior. Senna estava tão insatisfeito que o seu contrato era renovado corrida a corrida, mediante o humor do carro.
* Michael Schumacher, com apenas 23 anos e ao volante do Benetton-Ford, personificava a nova guarda. Um jovem atrevido, sem medo de hierarquias, pronto para morder os calcanhares aos dois veteranos.
No sábado, o cronómetro confirmou o favoritismo: Prost fez a pole, com Senna em segundo e Schumacher em terceiro. O palco estava montado para o caos.
## O arranque e o "Muro" de Senna
Quando as luzes vermelhas se apagaram, o favoritismo da Williams evaporou-se por segundos. Prost patinou excessivamente no asfalto e teve uma partida cinzenta. Ayrton Senna, com os seus reflexos felinos, disparou como uma flecha e assumiu a liderança antes da primeira curva. Schumacher também não perdeu tempo e saltou para segundo, relegando o francês para a terceira posição.
O que se seguiu nas primeiras 25 voltas foi uma obra-prima de condução defensiva. Senna sabia que o seu McLaren não tinha ritmo para aguentar a Williams a longo prazo. A sua única hipótese era o desgaste psicológico.
Prost rapidamente despachou Schumacher na volta 13 e colou-se à traseira do McLaren. Durante mais de dez voltas, os três carros rodaram colados, separados por centímetros, a mais de 250 km/h. Prost atacava com a potência do motor Renault; Senna fechava a trajetória com uma precisão cirúrgica; e Schumacher assistia na primeira fila, à espera do mais pequeno erro.
## A ultrapassagem e o choque de gerações
A resistência heroica de Senna cedeu à volta 25. Numa manobra limpa e decidida por dentro na travagem para a curva principal, Prost garantiu a liderança e começou a cavar uma distância confortável para rumar à vitória.
A corrida transformou-se então num duelo eletrizante pelo segundo lugar: o mestre contra o prodígio.
Após uma paragem simultânea nas boxes — onde os mecânicos da McLaren foram cruciais para manter Senna na frente —, Schumacher intensificou a perseguição. À volta 40, o jovem alemão viu o espaço ideal e tentou uma ultrapassagem arrojada por dentro. Senna, fiel ao seu estilo implacável, não cedeu um milímetro. As rodas dos dois monolugares tocaram-se levemente. Foi o suficiente para a Benetton de Schumacher fazer um pião e ficar atolada na gravilha. Fim de festa para o alemão.
## O pódio dos deuses
Com Schumacher fora de combate e Senna a gerir os pneus, Prost cruzou a linha de meta isolado, celebrando em grande estilo o seu regresso às pistas. Para aumentar o drama, o céu desabou sobre Kyalami nas últimas voltas com uma violenta tempestade tropical, mas Senna segurou o McLaren com unhas e dentes para terminar num suado segundo lugar.
O pódio de Kyalami 1993 entrou diretamente para a mitologia da Fórmula 1. Embora Mark Blundell tenha herdado o terceiro lugar, a imagem que ficou na retina do mundo foi o duelo estratégico e físico entre Prost, Senna e Schumacher.
Foi a simbiose perfeita da F1: o "Professor" com a sua inteligência tática, o "Magic" com a sua genialidade indomável e o "Kaiser" a dar os primeiros passos em direção à imortalidade. Kyalami assistiu a tudo na primeira fila.