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Há histórias na Fórmula 1 que parecem saídas de um romance policial. Entre heróis improváveis, engenheiros geniais e rivalidades históricas, o paddock também esconde mistérios que o tempo tentou apagar. Um dos mais fascinantes é a história da GLAS F1 Team, o projeto que prometia ser a primeira equipa 100% mexicana da história da categoria, mas que acabou por se evaporar no ar, deixando para trás um rasto de milhões de dólares e um carro órfão.
Esta é a crónica de um sonho que desapareceu sem deixar rasto à velocidade de um V12.
## O Nascimento de um Sonho Azteca
O ano era 1989. O México vivia uma febre de desporto automóvel, impulsionada pelo sucesso do Grande Prémio no Autódromo Hermanos Rodríguez. Foi neste cenário que o empresário mexicano Fernando González Luna Bueno decidiu dar o passo mais ambicioso da sua vida: criar uma equipa de Fórmula 1 genuinamente mexicana para a temporada de 1991.
O nome da escuderia seria GLAS, um acrónimo para a sua empresa, Gonzalez Luna and Associates.
González Luna não era um mero sonhador sem fundos. Ele apresentou um orçamento astronómico para a época — cerca de 20 milhões de dólares — e garantiu o apoio financeiro de vários investidores de peso e do próprio governo mexicano. O plano era sólido, o dinheiro parecia real e o paddock começou a levar o projeto muito a sério.
## Parceria com a Lamborghini e Engenharia de Elite
Para transformar o sonho em metal e fibra de carbono, a GLAS bateu à porta certa. O projeto fechou uma parceria técnica com a Lamborghini Engineering, a divisão de competição da marca de Sant'Agata Bolognese, que na altura pertencia à Chrysler.
A Lamborghini não ia apenas fornecer o seu estrondoso motor V12; ia construir o chassis inteiro. Para liderar o design do monolugar, foi contratado ninguém menos que Mauro Forghieri, o lendário engenheiro ex-Ferrari. O carro, batizado temporariamente de GLAS 001, começou a ganhar forma numa oficina em Modena, Itália.
Para o cockpit, a identidade mexicana manteve-se. O jovem talento Giovanni Aloi foi contratado para ser o piloto de testes e liderar a estreia da equipa em 1991. Tudo estava alinhado para um sucesso mediático estrondoso.
## O Desaparecimento no Paddock
Junho de 1990. A comunidade da Fórmula 1 convergia para a Cidade do México para o Grande Prémio. Estava agendada uma conferência de imprensa internacional onde a GLAS F1 Team iria apresentar o seu logótipo, as cores do carro e revelar as primeiras imagens do projeto ao mundo.
A apresentação nunca aconteceu.
Dias antes do evento, Fernando González Luna desapareceu misteriosamente. O empresário simplesmente volatilizou-se, desligou os contactos e nunca mais foi visto no paddock. Pouco tempo depois, descobriu-se que o dinheiro prometido nunca tinha sido transferido para Itália e que González Luna estava a ser procurado pela Interpol por fraude financeira internacional.
Da noite para o dia, a equipa mexicana estava morta. Giovanni Aloi ficou sem o seu lugar na F1 e a Lamborghini viu-se com um chassis quase pronto, um motor V12 afinado e uma fatia enorme de contas por pagar.
## A Fénix Italiana: Nasce a Modena Team
A Lamborghini e Mauro Forghieri recusaram-se a deitar o trabalho de um ano para o lixo. Com o apoio financeiro do industrial italiano Carlo Patrucco, a estrutura foi resgatada e rebatizada. O projeto abandonou as cores mexicanas e nasceu a Modena Team (frequentemente conhecida como Lambo F1).
O carro que deveria ter sido o GLAS 001 foi rebatizado como Lambo 291, um monolugar esteticamente deslumbrante, caracterizado pelos seus radiadores laterais triangulares e uma aerodinâmica agressiva.
A equipa chegou a alinhar na grelha de partida da temporada de 1991 com os pilotos Nicola Larini e Eric van de Poele. No entanto, o fado da equipa já estava traçado: sem o orçamento original e com a Lamborghini a retirar o apoio oficial a meio do ano, a Modena Team enfrentou terríveis dificuldades nas duras sessões de pré-qualificação da época, fechando as portas no final desse ano.
## Um Arquivo por Desvendar
A GLAS F1 Team permanece como uma das maiores notas de rodapé da história da Fórmula 1. Um projeto que tinha engenharia italiana de ponta, um motor V12 que fazia ecoar os corações dos tifosi e o orgulho de uma nação inteira, mas que foi destruído pela ambição oculta de um homem invisível.
Mais de três décadas depois, o paradeiro de González Luna continua a ser um mistério, mas o design intemporal de Forghieri para aquele que seria o "F1 mexicano" ficou para sempre guardado nos arquivos mais fascinantes do paddock.